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9 de outubro de 2014

um poema por dia nem sabe o bem que lhe fazia

NirvanaViver assim: sem ciúmes, sem saudades, 
Sem amor, sem anseios, sem carinhos, 
Livre de angústias e felicidades, 
Deixando pelo chão rosas e espinhos; 

Poder viver em todas as idades; 
Poder andar por todos os caminhos; 
Indiferente ao bem e às falsidades, 
Confundindo chacais e passarinhos; 

Passear pela terra, e achar tristonho 
Tudo que em torno se vê, nela espalhado; 
A vida olhar como através de um sonho; 

Chegar onde eu cheguei, subir à altura 
Onde agora me encontro - é ter chegado 
Aos extremos da Paz e da Ventura! 

Antero de Quental, in "Sonetos"

26 de fevereiro de 2012

um poema por dia nem sabe o bem que lhe fazia

Presente

"Queria neste poema a cor dos teus olhos
e queria em cada verso o som da tua voz:
depois, queria que o poema tivesse a forma
do teu corpo, e que ao contar cada sílaba
os meus dedos encontrassem os teus,
fazendo a soma que acaba no amor.

Queria juntar as palavras como os corpos
se juntam, e obedecer à única sintaxe
que dá um sentido à vida; depois,
repetiria todas as palavras que juntei
até perderem o sentido, nesse confuso
murmúrio em que termina o amor.

E queria que a cor dos teus olhos e o som
da tua voz saíssem dos meus versos
dando-me a forma do teu corpo; depois,
dir-te-ia que já não é preciso contar
as sílabas nem repetir as palavras do poema,
para saber o que significa o amor.

Então, dar-te-ia o poema de onde saíste,
como a caixa vazia da memória, e levar-te-ia
pela mão, contando os passos do amor."


Nuno Júdice, in "Os Poemas da Minha Vida".

29 de outubro de 2011

um poema por dia nem sabe o bem que lhe fazia

súplica


Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz. 
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.

Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.

Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.


miguel torga

10 de outubro de 2011

um poema por dia nem sabe o bem que lhe fazia

Recomeça...

Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.



Sísifo*Miguel Torga

30 de maio de 2011

um poema por dia nem sabe o bem que lhe fazia

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos nunca mais são os mesmos
E por vezes encontramos de nós em poucos meses o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes ao tomarmos o gosto aos oceanos só o sarro das noites não dos meses lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes num segundo se envolam tantos anos.

E por vezes*David Mourão-Ferreira

9 de abril de 2011

um poema por dia nem sabe o bem que lhe fazia

ele pediu para fecharmos os olhos, e começou a declamar com a sua voz quente e doce:

A verdade é que fomos

feitos do mesmo sangue

violento e humilde

A verdade é que temos

ambos a graça de compreender

todos os homens e todas as estrelas



A verdade é que Deus

nos ensinou

que este é o tempo da razão ardente.



Deus hoje deu-me um pouco

do que toda a vida lhe pedi

foi esta calma e simples aceitação

de que é preciso que estejas

longe de mim

para que amando eu possa conservar

o meu coração puro.

As ruas hoje pareciam mais largas

e mais claras

As casas e as pessoas

pareciam diferentes

Foi só o tempo de pedir a

Deus que prolongasse o generoso engano.

Tu ensinaste-me as palavras simples

as palavras belas

as palavras justas

E fizeste com que eu já não saiba

falar de outra maneira.

O amor substitui

o Sol — que tudo ilumina.

Sonhar contigo é quase como

saber que existo para além de mim.

Se basta que de mim te lembres

para que o sono facilmente venha

porque não hás-de dar-me amor a paz

com que o meu coração de há tanto tempo sonha

Vês como é tão simples

ter o coração

tão perto da terra

e os olhos nos olhos

e a alma tão perto

da tua alma

Por que será

que quanto mais repartimos

o coração

maior e mais nosso ele fica?


a verdade é que fomos*Raúl de Carvalho, in “Obras de Raul de Carvalho”